Remar é bom demais! Valeu Patagonia!

Foram muitas remadas nesta temporada 2013/2014 na Patagonia. Acabei não tirando muitas fotos. Os momentos ficarão para sempre na carne e na memória. Seguem algumas fotos:

Primeiro acampamento no Seno Otway, a caminho do Estreito de Magalhães, com Fabio Raimo. (Foto Luiz Felipe Buff)

Primeiro acampamento no Seno Otway, a caminho do Estreito de Magalhães, com Fabio Raimo. (Foto Luiz Felipe Buff)

Passando pelo Cabo Froward, no Estreito de Magalhães. Esse é o ponto mais a sul do continente americano. (Foto GoPro Still Luiz Felipe Buff)

Passando pelo Cabo Froward, no Estreito de Magalhães. Esse é o ponto mais setentrional do continente americano. (Foto GoPro Still Luiz Felipe Buff)

Primeira remada da Anna Böing, no Lago Elizalde. Muito bacana! (Foto Caio Poletti)

Primeira remada da Anna Böing, no Lago Elizalde. Muito bacana! (Foto Caio Poletti)

Carregando o kayak em Raul Marin Balmaceda! (Foto Anna Böing)

Carregando o kayak em Raul Marin Balmaceda! (Foto Anna Böing)

Anna pronta para partir de Raul Marin Balmaceda! (Foto Felipe Buff)

Anna pronta para partir de Raul Marin Balmaceda! (Foto Felipe Buff)

Lago Espolon! (Foto Anna Böing)

Lago Espolon! (Foto Anna Böing)

 

 

 

 

 

 

Caminho de volta ao Brasil!

Segue a vida. Segue o caminho. Ao caminhar se faz a vida, na terra ou no mar.

Final de temporada com a NOLS e tudo correu bem. Foram um total de 4 cursos. Que trabalho incrível o que fazemos. Mais incrível ainda são as experiências que vivemos e as pessoas que conhecemos. Nem vou tentar descrever como é um curso da NOLS e o que acontece durante essas expedições. Quem quiser que viva essa experiência.

No ano novo fiz uma viagem de kayak com o grande amigo Fabio Raimo. Uma das viagens mais importantes da minha carreira como remador. Partimos do Seno Otway, descemos o Canal Jeronimo até o Estreito de Magalhães, visitamos a Ilha Carlos III e remamos sentido Punta Arenas pelo famoso Estreito. Essa viagem ficará para sempre na memória. Pinguins, baleias, leões marinhos, albatrozes, pessoas bacanas e uma grande amizade. Não dá para parar de remar.

Uma parada no Estreito de Magalhães! (Foto Luiz Felipe Buff)

Uma parada no Estreito de Magalhães! (Foto Luiz Felipe Buff)

O quadril ainda dói e muito. Ficarei seis meses sem trabalhar de novo e tentar continuar com a recuperação. Abuso do quadril mais do que o trato bem. Espero que ele não faça o mesmo comigo.

Já estou no caminho de volta para casa. Com novas experiências, novos horizontes e muita alegria no coração. Partimos de Coyhaique, eu e Anna, no dia 08 de março, paramos para remar em Raul Marin Balmaceda, onde acampamos por três dias.  Foi bacana. Deu até para ver uma demonstração de tempestade patagônica e sua força. Vale a pena ler o poema de Pablo Neruda “Ode a la Tormenta“.

Acampamento em Raul Marin Balmaceda (Foto Luiz Felipe Buff)

Acampamento em Raul Marin Balmaceda (Foto Luiz Felipe Buff)

Agora em Futaleufu, tentando pegar um pouco de sol e então seguiremos norte e ver que caminho o caminho nos traz.

Mais Patagonia!

Que temporada incrível aqui na Patagonia. Depois de uma linda viagem de carro até Coyhaique, do passeio com a amiga Paty Soto até Puerto Guadal, comecei a trabalhar para a NOLS. Foram dois cursos incríveis. Remamos pelo Archipelago Chonos e tive a chance de conhecer instrutores e alunos incríveis.  Os dois cursos foram maravilhosos, com direito a muito frio, clima dinâmico, papos longos ao lado da fogueira, vento forte e muito aprendizado.

Foram mais de 400 milhas náuticas navegadas. Vimos Sea Lion, Albatross, Petrel, um desconhecido e pequeno escorpião, aranhas, pescadores e, ainda, tivemos a chance de ver o sol nascer e se por todos os dias, de tomar banho de chuva, de nadar em água gelada, de vencer desafios e de cuidar um dos outros, mesmo as menores feridas, de comer juntos, de dormir em lugares novos, de ter a vida nas mãos da pessoa do seu lado, de confiar, de sorrir aos mais simples movimentos da natureza, de chorar de saudade, de escrever diários, de catar conchas, de brincar de roda, de conversar sério debaixo de chuva e vento, de lembrar da infância, de sonhar com o futuro, de querer um mundo melhor e de fazer isso uma ação de todos os dias. Tomamos decisões diariamente que garantiram a nossa vida. Dormimos todas as noites levando em consideração as marés, ou seja, a Lua, ou seja, a relação da Terra com o universo, fisicamente falando. Sabe o que é isso? Todas as noites ter que olhar a Lua e a linha da maré para escolher onde montar sua cama? Para dormir seco, quente e feliz? Muito legal! Acreditem!

Infelizmente vimos muito lixo também. As praias remotas da Patagonia estã se enchendo de lixo produzido pelas fazendas de Salmão. O Chile é o segundo maior exportador de Salmão do mundo. Produzidos em fazendas flutuantes nas regiões mais remotas da Patagonia, o Salmão é criado a base de muito antibiótico, corante e são alimentados com peixes locais, pescado em quantidades exorbitantes. Fora isso, as Salmoneiras, como são chamadas aqui no Chile, produzem uma quantidade de lixo gigante, quase tudo plástico, que flutua e vai parar nas praias. Acreditem, mesmo em uma das regiões mais remotas do mundo não conseguimos acampar em nenhuma praia sem lixo. Todas as praias que acampei até hoje, do Alaska até a Patagonia, Brasil, Argentina… todas eu encontrei lixo plástico. Ah, saiba que o Salmão que vai para o Brasil vem do Chile.

Fora o lixo que viaja pelos oceanos e acabam por aqui também. Lixo do Japão, Russia, Brasil, Australia e outros países, e de navios cargueiros. Pasmem, 98% do lixo que encontramos é plástico. É preciso entender para onde vai nosso lixo e mudar a forma que nos relacionamos com os bens da vida. Foi um choque para mim a quantidade de lixo que encontramos.

Enfim, o negócio é acreditar no futuro, mudar nossa cabeça e respeitar mais o mundo que nos alimenta, afinal de contas, ninguém vai comer o saquinho plástico de supermercado, né? Já tem gente chupando bala, e outras coisas também, com embalagem.

Bom, depois de terminar dois cursos da NOLS, tive um dia de folga e logo estava planejando e preparando o seminário para instrutores da NOLS. Adorei dar este curso. Foram 8 dias de muito prática. Filmamos nossas habilidades técnicas e de resgate por dois dias, assistimos juntos e nos ajudamos a melhorar. Depois passamos 5 dias em Raul Marin Balmaceda, praticando técnicas e resgates avançados em condições bastante dinâmicas. Na barra do Rio Palena tivemos a chance de praticar em ondas, correntes e bastante vento. Teve dia que surfamos com golfinhos, por horas. Não dá para explicar!!!!

Terminado o seminário, sem tempo para respirar, mas com alegria no peito, já comecei a organizar os detalhes para minha viagem pessoal com Fabio Raimo. Vamos remar na região de Magalhães, no sul do Chile. Será uma expedição curta e intensa. Partiremos do Seno Otaway, seguiremos sul pelo Canal Jeronimo até o Estreito de Magalhães, e dali até quase Punta Arenas. Estou super animado, essa é umas das regiões mais interessantes e desafiadoras do planeta. Ter a chance de navegar onde muitos dos mais habilidosos homens do mar passaram e outros morreram será incrível.

Agora, estou em Puerto Natales, depois de viajar sozinho de carro desde Coyhaique. A viagem foi incrível. Por horas era somente eu na estrada de cascalho, com ventos de até 80km/h atingindo a caminhonete de lado e os kayaks, agiam como vela, empurravam o carro até o outro lado da estrada, sobre o cascalho. Loucura! Achei que estava num video game daqueles que não dá para errar, sabe? Foi umas das melhores viagens de carro da minha vida.

Hoje me vou a Punta Arenas, tratar de logística e amanhã buscar o Fabio no Aeroporto. Feliz Natal a todos! E não deixem de fazer o que está mandando o coração, é de lá que suas maiores alegrias e maiores tristezas devem nascer.

Patagonia, mais uma vez!

Enfim cheguei na NOLS Patagonia. É bom estar de volta e como uma temporada bacana pela frente. Vem coisa pela frente. Rebolo nas cadeiras e o quadril está se ajeitando devagar. Ainda dói, mas seguir positivo e fazendo a lição de casa é o que importa. Não vejo a hora de remar sem dor, inteiro, 100%. Chego lá, devagar, na reduzida, 4×4 e diferencial bloqueado.

No caminho passei por lugares incríveis. O caminho é sempre incrível, não importa para onde vá, seja ele qual for. O caminhar é estar vivo. Enfim.

Punta Lobos, Pichilemu, Chile. Lugar especial. Vi as ondas mais incríveis da minha vida neste lugar. Vou voltar!!! Foto Luiz Felipe Buff

Punta Lobos, Pichilemu, Chile. Lugar especial. Vi as ondas mais incríveis da minha vida neste lugar. Vou voltar!!! Foto Luiz Felipe Buff

Onde o Mar encontra a Terra. Um casamento perfeito. Punta Lobos, Chile. Foto Luiz Felipe Buff

Onde o Mar encontra a Terra. Um casamento perfeito. Punta Lobos, Chile. Foto Luiz Felipe Buff

Volcano Hornopirén (Horno - forno; Pirén - Neve; Na língua Mapuche: Mapu - Terra; Che - Gente), Sacou, Che?. Esse vulcão marca o início da Carretera Austral.

Volcano Hornopirén (Horno – forno; Pirén – Neve; Na língua Mapuche: Mapu – Terra; Che – Gente), Sacou, Che?. Esse vulcão marca o início da Carretera Austral.

Barcaza, balsa, de Hornopiren até Leptepu de onde se segue de carro por mais 10km, pega-se outra bolsa por 30 minutos e depois segui de carro 400km de estrada de terra até Coyhaique, para chegar na NOLS Patagonia. Foto Luiz Felipe Buff

Barcaza, balsa, de Hornopiren até Leptepu de onde se segue de carro por mais 10km, pega-se outra bolsa por 30 minutos e depois segui de carro 400km de estrada de terra até Coyhaique, para chegar na NOLS Patagonia. Foto Luiz Felipe Buff

Numa manhã na Carretera Austral. Foto Luiz Felipe Buff

Numa manhã na Carretera Austral. Foto Luiz Felipe Buff

Pneus furam! Foto Luiz Felipe Buff

Pneus furam! Foto Luiz Felipe Buff

Puerto Puyhuapi, Carretera Austral. Esse lugar é muito bacana. Foto Luiz Felipe Buff

Puerto Puyhuapi, Carretera Austral. Esse lugar é muito bacana. Foto Luiz Felipe Buff

Bem instalado na NOLS Patagonia. Primavera chegando e o frio continua. Foto Luiz Felipe Buff

Bem instalado na NOLS Patagonia. Primavera chegando e o frio continua. Foto Luiz Felipe Buff

E tudo isso para que? Para remar! Just that. Ainda descansarei alguns dias, vou viajar com amigos pela região, dar umas remadas e no dia 23 de setembro começo a trabalhar para a NOLS, renovado, feliz e com vontade no peito. Ficarei em expedição(ões) até o dia 19 de dezembro. Serão duas expedições de mais ou menos 30 dias cada uma com alunos e uma expedição de 10 dias com instrutores. É uma honra poder compartilhar o que aprendi e continuo aprendendo. E sinto-me honrado de ter sido convidado a ser instrutor do seminário de kayak da NOLS Patagonia. Os seminários são clínicas que a NOLS oferece para os seus próprios instrutores, sejam para os que querem aprimorar técnicas, sejam para aqueles que querem aprender uma nova atividade. O seminário de kayak na Patagonia tem como foco principal o desenvolvimento de técnicas de gerenciamento de grupo e risco, já que as condições climáticas na Patagonia são bastante desafiadoras. Depois, durante Natal e Ano Novo até meados de janeiro terei mais duas expedições próprias, projetos pessoais, que vou realizar durante as férias e volto a trabalhar para a NOLS até março de 2014. Ufa! Não poderia estar mais contente. Já valeu a viagem até aqui. É sempre um prazer chegar no campus da NOLS, onde fui aluno e pude aprender as maiores lições da minha vida.

Se minha Toyota falasse…

De São Paulo fui a Pelotas/RS, encontrei com grandes amigos e remamos. A vida é cheia de surpresas bacanas. Feijão, o grande amigo Rodrigo e seu pai, Plínio vieram com o veleiro Wahoo I nos encontrar no Arroio Pelotas. Eu, Rafa e Ren, que vieram de Gramado/RS, estávamos remando e conversando quando avistamos um veleiro a frente. Ren disse: “Acho que é um 36″. E eu pensei comigo, acho que é um 38, e algo no peito dizia que era o Wahoo I. E era. Que legal! Plínio, pai de Feijão, nos convidou para almoçar a bordo. Feijão fez uma massa e papeamos. Encontrar bons amigos é uma das melhores coisas da vida, não é?

A bordo do Wahoo I. Eu, Feijão, Plínio, Rafa. Foto Eduardo Ren

A bordo do Wahoo I. Eu, Feijão, Plínio, Rafa. Foto Eduardo Ren

Acampamos na beira do Arroio Pelotas, num gramadinho escondido. Jogamos conversa fora, demos risada e dormimos bem. Eu acordei cedão, pra variar, e já coloquei fogo no Rafa e no Ren, que logo saíram da barraca. Tomamos café num piscar de olhos estávamos remando numa neblina amiga.

Rafa remando no Arroio Pelotas, pouco antes de encontrarmos lugar para acampar. Foto Luiz Felipe Buff

Rafa remando no Arroio Pelotas, pouco antes de encontrarmos lugar para acampar. Foto Luiz Felipe Buff

Arrumando as tralhas para partir, na Praia do Laranjal, em frente a ProWind. Foto Luiz Felipe Buff

Arrumando as tralhas para partir, na Praia do Laranjal, em frente a ProWind. Foto Luiz Felipe Buff

Grande amigo e incentivador Eduardo Ren. Foto Luiz Felipe Buff

Grande amigo e incentivador Eduardo Ren. Foto Luiz Felipe Buff

Nosso acampamento!!! Foto Luiz Felipe Buff

Nosso acampamento!!! Foto Luiz Felipe Buff

No caminho de volta para a Praia do Laranjal, paramos para comer algo, esticar as pernas e tirar fotos. E, olhando rio abaixo, vimos dois remadores. Logo reconheci o Explorer do Joel e, para nossa surpresa e alegria, outro caiaque branco também singrava, do Leo, da ProWind. Dá-lhe Capitão!!!!!!! Que massa ver o Leo remando. Mais um encontro daqueles de fazer valer as amizades que construímos pelo caminho. Joel e Leo partiram cedo da ProWind, remaram por mais de duas horas para nos encontrar. E lá estava eu, com Ren, Rafa, Joel e Leo. Que orgulho e honra. Dessa vida o que levamos no peito são as pessoas que conhecemos. Contem comigo!!!

Leo e Joel chegando para nos encontrar. Foto Luiz Felipe Buff

Leo e Joel chegando para nos encontrar. Foto Luiz Felipe Buff

Sorriso de quem gostou de remar. Dá-lhe Leo. Seja bem vindo a canoagem oceânica. Que sejamos todos iluminados pela alegria do Leo!!!! Foto Luiz Felipe Buff

Sorriso de quem gostou de remar. Dá-lhe Leo. Seja bem vindo a canoagem oceânica. Que sejamos todos iluminados pela alegria do Leo!!!! Foto Luiz Felipe Buff

Leo, Joel, Ren e Rafa! Valeu galera! Foto Luiz Felipe Buff

Leo, Joel, Ren e Rafa! Valeu galera! Leo na sua primeira remada e já está puxando a fila. É isso aí!!!! Foto Luiz Felipe Buff

De Pelotas toquei viagem até Mendoza, na Argentina. Diga-se, não gostei muito de Mendoza. Passei uma noite ali e me toquei para Santiago. A estrada estava fechada, já que nevava muito do lado chileno. Passei uma noite em Uspallata, numa cabana simpática. Tomei sol, li e descansei. A estrada para Santiago é linda. Muito interessante! Passei uma noite em Santiago, fiz as compras que precisava.

Praça do centro de Mendoza. Foto Luiz Felipe Buff

Praça do centro de Mendoza. Foto Luiz Felipe Buff

Gavião ou Falcão? Alguém sabe? Foto Luiz Felipe Buff

Gavião ou Falcão? Alguém sabe? Foto Luiz Felipe Buff

 

Lendo e tomando no sol nos Andes. Uspallata, Argentina

Lendo e tomando no sol nos Andes. Uspallata, Argentina

O grande Aconcágua, tomando vento!!! Foto Luiz Felipe Buff

O grande Aconcágua, tomando vento!!! Foto Luiz Felipe Buff

Na fila da fronteira da Argentina para o Chile, no topo dos Andes. Foto Luiz Felipe Buff

Na fila da fronteira da Argentina para o Chile, no topo dos Andes. Foto Luiz Felipe Buff

De Santiago me mandei para Pichilemu, uma pequena cidade de praia, conhecida por ser o melhor lugar de surf no Chile. Cheguei e havia uma névoa densa, frio, um swell grande entrando e o Pacífico mostrando suas contradições. Meu quadril dói muito, dirigir é um pesadelo. Cheguei aqui e não fiz nada, apenas descansei. Hoje, terça-feira 10/09/2013, tirei o dia para conferir todos os equipamentos, fazer os reparos devidos no kayak e descansar mais um pouco. O mar está grande, mas há lugares e cantos interessantes para colocar o barco na água. Ainda não estou pronto para ondas deste tamanho. Mas, amanhã quem sabe, molho o kayak, o rosto e deixo a água do mar, salgada e verde, me contar alguns segredos.

No caminho para Pichilemu, na costa do Chile. Mapa, remo e otras cositas mas. Foto Luiz Felipe Buff

No caminho para Pichilemu, na costa do Chile. Mapa, remo e otras cositas mas. Foto Luiz Felipe Buff

Pichilemu, Capital do Surf! Foto Luiz Felipe Buff

Pichilemu, Capital do Surf! Foto Luiz Felipe Buff

O Pacífico mostrando suas garras em Pichilemu. 3,0m de onda, amanhã quem sabe dou uma caída. Foto Luiz Felipe Buff

O Pacífico mostrando suas garras em Pichilemu. 3,0m de onda, amanhã quem sabe dou uma caída. Foto Luiz Felipe Buff

Minha cabana em Pichilemu, no Chile. Aproveitei o dia para descansar o quadril, fazer reparos no kayak e arrumar as tralhas. Daqui pra frente vai ter bastante remada, camping, carretera austral, NOLS e a vida segue. Foto Luiz Felipe Buff

Minha cabana em Pichilemu, no Chile. Aproveitei o dia para descansar o quadril, fazer reparos no kayak e arrumar as tralhas. Daqui pra frente vai ter bastante remada, camping, carretera austral, NOLS e a vida segue. Foto Luiz Felipe Buff

Escrevendo este post, conferindo fotos e planejando com os mapas. Mapas e cartas náuticas são como um manual de fazer sonhos virarem realidade.

Escrevendo este post, conferindo fotos e planejando com os mapas. Mapas e cartas náuticas são como um manual de fazer sonhos virarem realidade.

Dirigi bastante até aqui. Agora quero fazer trechos mais curtos e remar pelo caminho. Querer é uma coisa, fazer é outra. Bora!

 

Visão e Ação

Estabelecer objetivos e trabalhar ativamente para alcança-los é o que a  NOLS (National Outdoor Leadership School) uma das maiores escolas de liderança em ambientes naturais do mundo, uma entidade sem fins lucrativos para qual trabalho, chama de “Visão e Ação”. Considerada uma das sete habilidades de um líder. Aproveito para dizer que o modelo de liderança 4-7-1 da NOLS é simples, direto e não se configura como uma doutrina fechada, um dogma. Em verdade é um ponto de partida. O importante é a prática e a qualidade da reflexão sobre a experiência vivida.  Liderança, acredita-se, é uma habilidade que se pode aprender e desenvolver e não uma característica genética.

NOLS 4-7-1

Leadership Roles

1 – Self Leadership

2 – Designated Leadership

3 – Peer Leadership

4 – Active Followership

Leadership Skills

1 – Expedition Beahavior

2 – Comunication

3 – Competence

4 – Vision and Action

5 – Tolerance for Adversity and Uncertainty

6 – Self Awareness

7 – Judgement and Decision Making

Canal Moraleda - Patagonia - Chile. Foto Oscar Manguy

NOLS 2010 – Canal Moraleda – Patagonia – Chile. Foto Oscar Manguy

Navegar deve ser baseado na realidade. Não há substituto para a realidade. Mesmo que se tenha a melhor fonte para a previsão das condições climáticas é preciso ver e agir de acordo com o que está acontecendo agora. Esse é um grande exemplo de “visão e ação” como habilidade de um líder na canoagem oceânica. Seja liderando um grupo ou a si mesmo. Adaptar-se a realidade e as mudanças inerentes à vida e aos elementos naturais, mas ao mesmo tempo ter uma visão de longo prazo e agir de acordo.

Mas, imaginando que a vida é uma metáfora, e as vezes até acho que é, “visão e ação”, pode se mostrar um conceito mais abstrato. Ou não! Visão é nossa conexão com o futuro, e ação é nossa conexão com o presente. Arrisco dizer que é o presente que acabou de passar. Fica aí o jogo de palavras, pois uma ação pode ser encarada como algo que já ocorreu. O que fazemos é quem a gente é, deixou de ser e se tornará, ao mesmo tempo.

Mesmo com o melhor dos planos – acredite em mim – as coisas mudam no caminho. E hoje será sempre diferente do que o antecipado. E se a bússola aponta para o Norte, saiba que com essa informação você também pode encontrar o Sul e  fazer tudo diferente.

Vivo com a cabeça cheia de idéias. E as vezes tenho o ímpeto de achar que todas darão certo e, depois de algumas broncas daqui, risadas dali e muita parceria, rio de mim mesmo. De outro lado, algumas dessas idéias movem a minha vida para frente. As idéias se tornam uma visão.

A vida terá sempre altos e baixos, mas será, no fim das contas, o que fazemos dela. De um jeito ou de outro.

A minha lesão no quadril está bem melhor e tenho a agradecer a amiga e treinadora, Juliana Orsolin e a dieta de Samuel Schim. Dou minhas escorregadas, disciplina nunca foi o meu forte, mas, disciplina é uma técnica interessante. Ainda não estou 100%, mas estou melhor e o, mais importante, acreditando na mudança e mudando. O tratamento da minha lesão envolve muito mais do que tomar remédios e fazer fisioterapia. É sim uma mudança de visão, de compreensão do corpo e dos meus objetivos.

2013 - Lagoa de Ibiraquera - SC - Brasil. Treinando equilíbrio. Foto Átila Portal

2013 – Lagoa de Ibiraquera – SC – Brasil. Treinando equilíbrio. Foto Átila Portal

Dessa vez vou mais devagar e buscando ser mais eficiente. Treinos fortes, muito repouso (essa sim a parte mais difícil da minha reabilitação), muita internet (hahahahaa), novas receitas e algumas velhas difíceis de abir mão, encontros e reencontros. Sinto-me bem para o próximo passo. Apeguei-me a uma visão, quero fazer acontecer, tomo ações nesta direção e há muitos planos tomando forma. Continuo com o objetivo de recomeçar a expedição da costa do Brasil em 2016.

Por hora, vou construindo o caminho e realizando metas de curto e médio prazo. Quarta-feira vou partir para Patagonia, dirigindo, sozinho e ficarei até março de 2014. Vou remar pelo caminho, trabalhar para a NOLS por uns 4 meses, feliz da vida e continuando a alimentar a alma de visões, amigos, um pouco de macarrão e ovo em pó, chuva, vento e lugares novos. Durante a minha folga, no Natal e Ano Novo, vou realizar expedições pessoais de kayak, remar com amigos, conhecer lugares novos, desafiar  e conhecer limites e possibilidades.

Neste final de semana fui para São Sebastião com a companhia do grande amigo Átila Portal, experiente montanhista e uma pessoa incrível, fiz alguns treinos, demos risadas, tiramos fotos e ele me ajudou a fazer o primeiro Gear Check (Verificação do Equipamento), de três que serão realizados até quarta-feira. Isso é que é amigo. Atila tem me ajudado, dado força, conselhos, dividio momentos de alegria e me estimulado a aprender coisas novas!

2013 - Guaecá - SP - Brasil. E ainda falta um monte de coisa. Foto Luiz Felipe Buff

2013 – Guaecá – SP – Brasil. E ainda falta um monte de coisa. Foto Luiz Felipe Buff

Com ele estou aprendendo a voar de Paraglider, me dá muitas dicas interessantes, ensina com prazer e alegria, como um ato de coração. Veja só que legal, pensa comigo: não é bacana ter um amigo que te ensina a voar?  - “Olhar para as nuvens e ver um caminho seguro e divertido” – em suas palavras.  Valeu, Atilão! Já já estamos voando e remando por aí de novo.

2013 - Praia de Guaecá - SP - Brasil. Átila me dando dicas de voo. Tupã assistindo e Frida acompanhando de perto. Foto Alessandra Dimitriou

2013 – Praia de Guaecá – SP – Brasil. Átila me dando dicas de voo. Tupã assistindo e Frida acompanhando de perto. Foto Alessandra Dimitriou

No sábado remei com outro grande amigo e parceiro Fabio Raimo, um mentor, educador nato e grande motivador e com quem hoje tenho a honra de compartilhar a amizade, a família, os cachorros, risadas e grandes momentos na água.

Entramos no mar numa prainha em São Sebastião, brincamos com uma OC 1 da Opium Caiaques e um Stand Up. Gostei da canoa havaina, muito legal! Depois caímos em Guaecá, ondulação pesada, maré cheia, Fabio de Surfinho e eu com o Empower. Fiquei no inside, tomando espumão e treinando técnicas e  manobras. Foi divertido, com direito a um loop, umas “quebra coco” na cabeça e tudo o mais. Mesmo ali dentro, a coisa não estava brincadeira. Raimo, de surfinho, ainda aproveitou para dar uma entrada no canto Norte e pegou altas ondas!!! Valeu Fabião, pela hospitalidade, carinho e confiança. Vamos que vamos!!!!

2013 - São Sebastião - SP - Brasil. Primeira vez numa canoa havaiana. Gostei! Foto Átila Portal

2013 – São Sebastião – SP – Brasil. Primeira vez numa canoa havaiana. Gostei! Foto Átila Portal

2013 - Praia de Guaecá - SP - Brasil. Fabio Raimo passando a arrebentação. O cara é fera! Foto Luiz Felipe Buff

2013 – Praia de Guaecá – SP – Brasil. Fabio Raimo passando a arrebentação. O cara é fera! Foto Luiz Felipe Buff

2013 - Praia Guecá - SP - Brasil. Bom papo depois da surf session. Foto Átila Portal

2013 – Praia Guecá – SP – Brasil. Bom papo depois da surf session. Foto Átila Portal

No caminho de volta, hoje de manhã, encontrei com o Marcos Martins, o Marcão, amigo e remador, que participou da primeira expedição brasileira de kayak pelo Golfo de Penas, junto com o Fabio Raimo. Fomos para a foz do Rio Guaratuba, em Bertioga. Curtimos uma ondulação legal, de uns 2,0m, de Sul, com pouco vento leste, em torno dos 8 nós. Ondas longas, gordas, mas um pouco confusas por conta do vento do dia anterior. Eu, mais conservador, fiquei no inside, como no sábado quando remei com o Fabio, sentindo como meu quadril se comporta. Está forte, sem dor, mas algo na mente ainda me deixa inseguro.

2013 - Guaratuba - Bertioga - Brasil. Despedindo do amigo na água. Valeu Marcão!!!

2013 – Guaratuba – Bertioga – Brasil. Despedindo do amigo na água. Valeu Marcão!!!

Nossa mente é muito forte, aprender a lidar com ela é importante para transformar visão em ação.

Qual a sua visão? O que fez hoje para chegar lá? Entrego-me por inteiro a tudo que faço. Entrego-me a minha família, ao meu trabalho e aos meus projetos. A sensação é forte, tudo parece fazer sentido e a metáfora da vida, a bordo de um kayak, ou de um paraglider, é muito bacana. O mar e céu se aproximam, como num espelho no qual a imagem distante está na tela tão próxima que dá para tocar.

Solo

Desde pequeno tive medo de ficar sozinho. E, também desde pequeno, leio livros sobre histórias de viagens, exploradores, conquistas, expedições. Ficava intrigado com a capacidade e a coragem de muitos desses grandes personagens da história do mundo. Viajar é incrível. Tive a sorte de ter feito muitas viagens com minha família, depois com amigos, com meus irmãos. Lembro-me do meu primeiro acampamento. Não foi fácil. Foi até engraçado.

Com o tempo peguei gosto pela natureza. Cresci como pessoa. Tornei-me auto suficiente, confiante, capaz de lidar com as adversidades e incertezas inerentes a vida, senti sede, fome, frio. Dividi comida, cama, água e momentos inesquecíveis com pessoas, que mesmo com tempo nos afastando, ficarão guardadas para sempre no peito.

Entre acampamentos de finais de semana, escaladas, boemia e a faculdade de direito fui me entregando a uma vida mais perto da natureza, do desconhecido, do novo, do limpo, do verde, do molhado, do sol, da areia. Larguei a carreira jurídica e fui embora de São Paulo. A solidão foi uma grande companheira. Nunca foi fácil para mim ficar sozinho. Lia as histórias de grandes montanhistas e outros exploradores que se metiam em viagens sozinhos. O grande Amyr Klink, um exemplo de calma e motivação. Viajar sozinho não é mole. Como diz um dos maiores kayakistas em expedições solo do mundo, Sean Morley: “Quer diversão vá com os amigos. Mas se buscas grandes realizações vá sozinho.” No contexto de seu artigo fica evidente sua intenção em compartilhar o sentimento único que há em enfrentar uma viagem sozinho.

Primeira viagem sozinho. Ilhabela - Praia da Caveira 2009

Primeira viagem sozinho. Ilhabela – Praia da Caveira 2009 – Foto Luiz Felipe Buff

Não tem por onde, sozinho, crescemos, ficamos mais humildes, sentimos na pele o gosto da incerteza e no momento seguinte da confiança na sua decisão. Ao deitar a cabeça no saco de dormir e sentir na pele, nos olhos pesados e na boca salgada o gosto e a grandeza de ter vivido cada segundo com grande intensidade.

Farol Verga - Praia do Cassino/RS - Brasil

Farol Verga – Praia do Cassino/RS – Brasil – Foto Luiz Felipe Buff

Durante a minha tentativa de remar pela costa do Brasil foi interessante conhecer  mais de perto a solidão. Fiquei feliz e orgulhoso de ter tentando uma viagem em solitário. Tive muitas companhias durante os três meses. Conheci pessoas e tive a  honra de receber uma grande amiga durante três semanas para remar juntos. Mas tive a chance também de passar algum tempo sozinho. O grande mar do sul do Brasil serviu-me de um novo parto. Somos paridos a cada segundo quando o que fazemos importa, quando o que decidimos garante a vida.

Praia do Cassino/RS - Brasil - 2013

Praia do Cassino/RS – Brasil – 2013 – Foto Luiz Felipe Buff

Isabelle Laferty, amiga, dos EUA, que me acompanhou durante 3 semanas, pela não tão fácil assim, travessia das lagoas na costa do Rio Grande do Sul

Isabelle Laferty, amiga, dos EUA, que me acompanhou durante 3 semanas, pela não tão fácil assim, travessia das lagoas na costa do Rio Grande do Sul/Brasil – 2013 – Foto Luiz Felipe Buff

Desde 2008, quando comecei a rabiscar as primeiras idéias e levantar informações sobre a costa do Brasil, elaborei muitos planos e pensei diversas estratégias. Nunca havia pensado em fazer essa viagem em solitário. No entanto, o caminho foi marcando as minhas pegadas. Nos últimos 5 anos dediquei-me a canoagem oceânica com vontade. Encantei-me pelo estilo de viajar, pelo mar, pelas praias, pelos lugares onde o barquinho me levou. Com orgulho hoje trabalho para uma organização sem fins lucrativos que ensina liderança em ambientes remotos. Assim, com a oportunidade de aprender e ensinar, conheci o Alaska, a Patagonia, o Canadá, a Argentina, a praia do Moises no Guarujá, a Ilhabela, Ilha Grande, da Moela, faróis, pássaros, ondas grandes e pequenas, vento, o frio, o gelo, a neve, ursos, baleias, pedras, marés, correntes e pessoas maravilhosas.

Curso de Instrutores da NOLS - 2009 (com os Instrutores Dave Watson e Roger Voller e os amigos Bruce Smith, John Porter, Christian Zavala, Ludo, Kaitlin, Blair Peck, Isabelle Laferty)

Curso de Instrutores da NOLS – 2009 (com os Instrutores Dave Watson e Roger Voller e os amigos Bruce Smith, John Porter, Christian Zavala, Ludo, Kaitlin, Blair Peck, Isabelle Laferty) – Foto Roger Voller

Eu não conseguia ficar sem remar. Voltava para o Brasil depois de 4 meses remando na Patagonia e ia remar no dia seguinte. Nos últimos três anos remei mais de duzentos dias por ano. Livros, clínicas e umas vacas para tirar o fôlego. E o desejo de fazer a costa do Brasil foi crescendo até que decidi fazer. Do jeito que fosse. Parceria não é algo fácil de encontrar. Tem gente que quer mas não sabe, tem gente que sabe mas não quer. Na vida importa o que a gente quer e sabe. E consegue.

Mesmo com os parentes e pessoas mais próximas aconselhando-me a não ir, fui! Cometi erros de planejamento e meu corpo sentiu o esforço. Decidi parar e a viagem ficou engasgada na garganta e mais em algum lugar dentro de mim que nem sabia que existia. Massa! A Expedição Sea Kayak Brasil – Remando para o Futuro 2013 deu certo. Aprendi, remei, tentei, fui. Remando para o Futuro foi o nome que escolhi e que se tornou o meu espelho. De volta em São Paulo a depressão bateu. Decidi organizar tudo de novo, recomeçar. Corrigir os erros e dar-me tempo.

O fato de ter ido sozinho foi muito legal. Adoro estar com gente, amo o meu trabalho de educador ao ar livre. Amo dividir momentos incríveis, lugares bacanas, com pessoas diferentes. Mas, sei lá, tem momentos na vida que temos que fazer as coisas sozinhos. É diferente.

Com os amigos Andy Dennis e Oscar Manguy, em Homer/Alaska

Com os amigos Andy Dennis e Oscar Manguy, em Homer/Alaska – Foto Tom Pogson

Em 2016 vou tentar remar a costa do Brasil de novo. Do zero, do começo. Até lá vou realizar outros projetos, que me servirão de treinamento. Vou voltar ao meu trabalho com a NOLS e fazer alguma coisa pessoal na Patagonia. Mas jamais vou largar esse vício de fazer algo sozinho, de sentir tudo na pele e nas veias, de não ter ninguém para culpar, de falar sozinho, de rir sozinho, de ser inteiro.  Não tem um dia, uma noite, uma manhã que não pense em remar.

Praia de São Pedro/SP - Brasil 2012 - Foto Carla de Conti

Praia de São Pedro/SP – Brasil 2012 – Foto Carla de Conti